Membros brasileiros da travessia antártica na frente do módulo Criosfera 1, junto com um dos veículos usados. Da esquerda para direita: Ronaldo Bernardo, Filipe Lindau, Luciano Marquetto e Jefferson Simoes. 

Travessia Antártica Brasileira 2015: relatos de viagem

 

Nosso site será o espaço de divulgação dos relatos de viagem do professor Jefferson Simões, líder da primeira travessia antártica brasileira e diretor do Centro Polar e Climático.

Aqui, o leitor poderá encontrar as curiosidades e atividades que estão sendo realizadas, diariamente, pelos quatro pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) no continente congelado.

 

Os textos são enviados, direto da Antártica, por Jefferson Simões.

 

Diário de uma viagem ao desconhecido

 

Dias 05 e 06 de janeiro

 

Após os dois primeiros dias de viagem, percorremos os 520 km entre a geleira Union (o acampamento base da Antarctic Logistics Expeditions) e o módulo científico Criosfera 1, situado já a 84 graus Sul . A viagem é relativamente rápida nesta parte do trajeto, pois seguimos a “‘estrada” que leva ao Polo Sul Geográfico. Trata-se de um caminho frequentemente usado por aventureiros, esquiadores que pagam uma fortuna para, por exemplo, esquiar os 1200 km até o Polo Sul. Além, disso, tratores para neve passam neste caminho frequetemente, aplainando o gelo.

 

Chegamos, no final do dia 06, ao módulo Criosfera 1. Este é o módulo cientifico latino-americano mais ao sul do Planeta, totalmente sustentável (a energia usada é somente eólica e solar). É uma iniciativa da comunidade científica brasileira, liderada pelas Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). É dedicado, principalmente, à pesquisa atmosférica, mas novos sensores para pesquisas de raios cósmicos, por exemplo, estão aos poucos sendo colocados lá.

Acampamos ao lado do módulo e preparamos os equipamentos para nosso primeiro trabalho de campo, a perfuração de um testemunho de gelo raso (de 11 m) que dará continuidade a nossos estudos iniciados neste mesmo local, no verão de 2011/2012.

 

Dia 07 de janeiro

 

No módulo Criosfera 1, altitude 1120 m, temperatura 11 graus Celsius negativos

 

As condições meteorológicas tem nos ajudado, não só a temperatura permanece relativamente alta, na faixa dos 11 a 15 graus negativos, mas o vento não tem ultrapassado os 20 nós. Isso permite que o trabalho siga rapidamente.

 

Como sempre, escavamos uma trincheira de 2 m para proteção do vento (ficar parado trabalhando exposto ao vento é doloroso e desgastante), e ao longo do dia coletamos o primeiro testemunho. A partir de agora, amostraremos continuamente (a cada 10 km) a neve superficial para estudar variações na concentração de alguns elementos químicos e razões de isótopos de oxigênio e hidrogênio (isso nos dá informações importantes sobre processos de transporte de massas de ar e variações na temperatura do ar).

às 23 horas tiramos algumas fotos na frente do módulo Criosfera 1 e iniciamos nossa travessia.


Dia 08 de janeiro

 

Agora realmente estamos totalmente fora de “‘estrada”", na verdade pegamos uma rota para o qual não existe registro de presença humana. Primeiros 80 km foram extremamente lentos (cerca de 10 km pro hora) devido a enorme quantidade de sastruguis perpendiculares à nossa rota, que leva ao manto de gelo da Antártica Ocidental. Sastruguis são dunas de neve endurecida, formada pela ação do vento, tem entre 20 a 50m de altura (às vezes mais). Por causa disso, nossa viagem inicial foi como se tivéssemos atravessando um campo de quebra-molas, espaçados 1 a 4 m ao longo de 80 km. Enfadonho e cansativo, e pobre da suspenção do veículo.

Finalmente, após os 80 km, os sastruguis desapareceram e a neve fofa cobria a superfície, garantindo um cruzeiro mais estável.

Ao longo de todo o trajeto paramos (e iremos parar) a cada 10 km para recolher amostras superficiais. Após o primeiro 100 km fizemos uma perfuração de 5 m e um lanche (ou um picnic a menos 15 graus Celsius).

 

Finalizamos os primeiro 200 km às 23:30 do dia 08, com temperatura menos 15 graus Celisus.

Amanhã (dia 9/01) ficaremos nesta posição coletando um testemunho de gelo de 20 m, e dando descanso aos nossos motoristas islandeses.