O geólogo e doutorando Luciano Marquetto (UFRGS) observa a estratigrafia (sequência anual das camadas de neve) em uma trincheira escavada no monte Johns, manto de gelo da Antártica Ocidental.

Travessia Antártica Brasileira 2015: relatos de viagem (4)

 

Dia 15 de janeiro 

Posição; 79 graus 55,5 minutos Sul: 94 graus 21 minutos Oeste
Altitude: 2123 m
Temperatura 22 graus negativos (Celsius), vento quase nulo.

 

Hoje completamos a última parte da investigação a partir de nosso acampamento no monte Johns.
Nossa missão do dia: adentrar 100 km na bacia de drenagem da geleira da ilha Pine, amostrando superficialmente a neve e recuperar um testemunho de gelo curto (5 m) para determinar a variação da acumulação de neve nos últimos anos. Mas qual o nosso interesse científico nesta enorme massa de gelo isolada, que corre para o oceano Austral, mais corretamente para o mar de Amundsen?

 

Vou explicar o caso da geleira da ilha Pine…

Estamos sobre o manto de gelo da Antártica Ocidental, em média 2000 metros acima do nível do mar. Conforme avançamos sobre a geleira da ilha Pine, a espessura do gelo aumenta, atingido 3500 m a 100 km de nosso acampamento. Evidentemente, nessa região o gelo está assentado sobre o continente bem abaixo do nível do mar, no caso até 1600 m abaixo. Se retirássemos todo o gelo da Antártica Ocidental, restaria um arquipélago, e aqui reside o interesse científico da comunidade científica.

Em 1968, o glaciólogo Mercer propôs em artigo marcante a seguinte hipótese: as geleiras que estão assentadas sobre a rocha em uma superfície abaixo do nível do mar são mais sensíveis às variações ambientais, principalmente ao aumento da temperatura das águas oceânicas. Basicamente água mais quente, mesmo em alguns graus, poderia causar o recuo das frente dessas geleiras de maneira rápida, desestabilizando os pontos nos quais ela está assentada sobre a rocha, fazendo com que o gelo deslisasse mais rapidamente para dentro do mar e contribuindo para o aumento do nível dos oceanos (em alguns metros) em pouco mais de um século. Ele inclusive identificou a geleira da ilha Pine como uma das regiões críticas a serem monitoradas para detecção adiantada de tal comportamento!

 

A partir do início deste milênio, os estudos por imagem satelitais começaram a detectar exatamente um rápido recuo da frente da geleira da ilha Pine. Assim, não causa surpresa o investimento de milhões de dólares por parte da comunidade internacional (principalmente pelos EUA, Reino Unido e Chile) nas investigações dessa e outras geleiras nesta parte do manto de gelo antártico. Nosso missão é uma pequena contribuição, tanto financeira como científica, a esses estudos. Com a instalação do Criosfera 2, no próximo ano, pretendemos avançar os estudos sobre a atmosfera regional e monitorar as mudanças nas condições ambientais.

Voltando ao dia 15 de janeiro – 15:30

 

As condições da neve estavam tão boas (sem sastrugis, e não afundando) que permitiu que nossos veículos chegassem a 50 km por hora.
Como o tempo estava excelente, chegamos às 15:30 de volta ao acampamento do monte Johns e decidimos “correr” durante as próximos 24 horas em direção ao acampamento base na geleira Union, amostrando a neve ao longo do caminho.

 

Condições meteorológicos como tivemos nos últimos 10 dias são raríssimas na Antártica, não tivemos nenhum tempestade até agora, e não queremos correr o risco de ficar presos dois ou mais dias em caso de nevasca e visibilidade reduzida. Na parte final do trajeto teremos que atravessar uma região montanhosa cheia de fendas (algumas poderiam engolir nossos veículos) e temos que ter visibilidade perfeita para navegação.

Partimos às 18:50, a “noite” será longa.